Descaso, caos, maus-tratos, dor. No CCZ, nada de novidades. PDF Imprimir E-mail
Animais
Canis limpos, comida farta. Funcionários solícitos. Nada de fila de protetoras tentando uma vaga para a castração. Muitos espaços vazios. Mas o rastro da dor, da morte, dos maus-tratos, os olhares de desencanto mesclados com apelos silenciosos de cães e gatos, os corpos encolhidos dos que já desistiram da vida, isso tudo não pôde ser disfarçado. A inadequação e a falta de estrutura do Centro de Controle de Zoonoses ficou evidente para o grupo de vereadores e assessores que visitaram o Centro de Controle de Zoonoses dia 23 de março de 2009, em mais uma atividade da Comissão de Estudos para Avaliação da Coexistência dos Animais Domésticos, Domesticados, Silvestres Nativos e Exóticos com a População Humana, os Reflexos na Saúde Pública e Meio Ambiente e a Legislação Pertinente na Cidade de São Paulo, instituída na Câmara Municipal de São Paulo.


Os vereadores Roberto Tripoli (PV), presidente da Comissão e Aurélio Miguel (PR), relator, e vários assessores de seus gabinetes e dos gabinetes dos vereadores Bispo Atílio e Gilberto Natalini foram conduzidos pelas dependências do CCZ, guiados pelo gerente, Dr. Marco Antonio Vigilato, que brincou muito, riu muito e garantiu que queria falar “somente das virtudes do Centro”, que é referencia mundial como órgão de controle de zoonoses, por seus laboratórios, estudos, avanços. Um centro realmente de referência, mas que ainda não aprendeu a lidar com a vida de forma menos cruel. Um Centro que nada propõe, de inovador, em relação aos dramas advindos do descontrole populacional de cães e gatos na maior e mais rica cidade do País.


CANIS-CELAS: ISOLAMENTO E DESESPERANÇA


Nos corredores que permeiam os 135 canis individuais “de observação”, a situação de maus-tratos é evidente. 135 canis-celas, espaços minúsculos, escuros, onde nenhum raio de sol penetra. Canis que são lavados sem que os animais sejam retirados.

Animais que vão perdendo, aos poucos, a vontade de viver. Olhares repletos de apelos; outros, de um vazio incômodo, o vazio das criaturas que desistem de lutar pela vida. Alguns cães demonstram sinais evidentes de desespero, estresse. Giram sem parar no entorno do próprio corpo. Alguns (poucos) rosnam mostrando os dentes, babam, expressam sua dor de forma violenta. Outros uivam. Outros permanecem imóveis, com a cabeça e a calda apertadas nas paredes frias do canil. Desistiram até de latir. Os maiores, de grande porte, mal conseguem se virar nos minúsculos compartimentos-celas. Nota-se uma grande quantidade de cães visivelmente deturpados emocionalmente, pela dor, pelo sofrimento, pela solidão, pela falta de espaço e esperança. Vidas que certamente serão perdidas. Vítimas da reprodução indevida, do abandono, do descaso da sociedade e do Poder Público.

Muitos dos animais estão nessa situação há dois, três meses ou mais. Sobretudo Pit Bulls. A maioria desses canis-celas é ocupada por cães da raça Pit Bull ou seus mestiços, a raça fabricada e deturpada por humanos. Uma raça difícil, complexa, de cães personagens de um drama nunca encarado de frente. Vidas atiradas no bueiro do descaso.  Além dos “Pitts”, cães e cadelas das raças Rottweiler, Boxer, e até um poodle e tantos mestiços.

A lei estadual que proíbe o sacrifício de animais sadios no CCZ permite a eutanasia – para os cães e gatos com laudo de doença irreversível, física ou emocional. O CCZ tem como regra não colocar cães da raça Pit Bull para adoção. São considerados perigos em potencial, doentes mentalmente, portanto. Ficam à espera dos três meses em que a socialização deveria ser tentada, conforme reza a lei estadual. Mas não existe este trabalho e nem existe forma de comprovar se o animal realmente é um pit Bull, ou American Pit Bull Terrier ou de raça assemalhada. O certo é que eles sofrem, dias, noites, semanas a fio, trancafiados nos canis individuais. Longe de tudo, de todos. À espera da morte anunciada.

E os cães ainda convivem com ratos, muitos ratos. Uma pia de aço inox existente na proximidade dos canis estava repleta de fezes de ratos. “O que é isso doutor? São fezes de ratos em pleno Centro de Controle de Zoonoses, órgão responsável pelo controle de roedores na cidade?”, perguntou o vereador Tripoli ao gerente de CZZ. Dr. Vigilato garantiu; “não são ratazanas de esgoto, são ratos de telhado, impossível controlar”. “Mas aqui – insistiu o vereador – não deveriam saber controlar esses ratos. E os cães, como ficam?” O gerente concluiu que “não são ratos perigosos, eles descem dos telhados atrás de ração, somente isso”.

COMIDA, ÁGUA.
E MAUS-TRATOS.


“Como veterinário o senhor considera que estes animais estão em situação de maus-tratos?”- a pergunta fatal para o gerente de CZZ, Marco Vigilato. “Eles tem comida, água, não são maltratados”, tenta justificar o gerente, completando: “eu não posso doar um Pit Bull, imagina se ele comer uma criancinha”. “O senhor considera maltrato essa condição de abrigo, sem espaço, sem sol, sem movimentos adequados?”. “Imagina, eles até passeiam com os funcionários”, garante Vigilato, mesmo afirmando, pouco depois, que o CCZ não tem funcionários suficientes, que o CCZ não é abrigo, que o CCZ não tem o que fazer. Mesmo assim, insiste em falar “das virtudes” do Centro e de todo o bom trabalho que vem sendo realizado no local.

“O CCZ não é abrigo mesmo, mas não podemos mais admitir tanta dor, temos que acabar com essa história antiga de sofrimento, um sofrimento que persiste, seja com sacrifício ou não. Temos que acabar com esse descaso pela vida”, diz o vereador Tripoli, visivelmente emocionado depois de acariciar longamente, pelos vãos das grades enferrujadas, um Husky Siberiano, que buscava a mão, uivando, tentando livrar-se do cativeiro, da solidão, da indiferença. O vereador abaixou-se, acariciou mais o animal. Quis saber de onde ele veio, por que estaria ali, isolado, mesmo mostrando-se tão manso.


Em meio à papelada e à ausência de um sistema eficiente e informatizado de controle das fichas dos animais, depois de quase uma hora, funcionários localizam o registro do Husky: ele “invadiu” a área de uma creche. Viveu no local quatro meses, período de incessantes chamados dos responsáveis pelo estabelecimento, que exigiam a retirada do “invasor”. Um animal de raça, fabricado e provavelmente vendido com pedigree para um proprietário irresponsável. Um cachorro meigo que um dia teve um dono. Que deveria ter registro e identificação. Que poderia ter uma família. Que se transformou em “invasor”. E hoje vive no canil frio, escuro, sem esperança.

CANIS COLETIVOS:
MAIS DESCASO


Nos canis coletivos, muitos animais tossindo, outros com evidente estresse e a mesma desesperança nos olhares. Muitos também vivendo no local há meses. A maioria adotável, mas sem um trabalho efetivo do Poder Público que amplie a possibilidade dos animais reencontrarem uma família humana que os abrigue.

Os vereadores e seus assessores foram passando pelos canis, os animais agitados, alguns latindo, mas muitos já apáticos.

No canil D, um animal encolhido, com a cabeça aparentemente molhada. E secreções acumuladas no chão, nas proximidades de onde ele apoiava a cabeça. Depois de muita insistência, o gerente do CCZ mandou levantar a ficha do animal e ordenou que um veterinário viesse ao local para retirar o cão e examiná-lo.

Quando o cachorro foi retirado, um cachorro peludo, tigrado, de porte médio, e levado para uma mesa de inox para ser examinado o horror se evidenciou. Uma das orelhas estava pendurada. Havia buracos na cabeça, por onde larvas penetraram. Ele estava sendo devorado vivo. Bicheiras, que, se identificadas a tempo, poderiam ter sido facilmente curadas.

O animal foi sedado. Enquanto os dois veterinários do CCZ removiam as larvas, algumas grandes, vivas, outras menores, algumas mortas, mais e mais cavidades repletas de larvas iam aparecendo. Muita secreção escorria, um odor fétido tomou conta da sala. O horror nos olhos dos visitantes. E todos questionando como um animal, naquele estado, permanecia preso e esquecido no canto de um canil coletivo. Um retrato do descaso, do abandono à própria sorte. Do horror. Nada mais havia a fazer, a não ser eutanasiar imediatamente o cão, fazendo cessar a dor.

669, era o número da ficha do cão que revelou parte de sua história: ele chegou ao CCZ em 14 de agosto de 2008 e sete meses depois, foi eutanasiado, com boa parte de sua cabeça devorada por larvas.



NA ÉGUA DOENTE,
A MARCA DA CRUELDADE HUMANA



O vereador Tripoli quis ver os cavalos. É de sua autoria a lei que proíbe a circulação de carroças e animais montados ou não em ruas e avenidas calçadas e asfaltadas da cidade. Uma lei que necessita de mais fiscalização, mas vem permitindo a retirada de muitos animais submetidos a crueldades profundas por carroceiros.

Uma das éguas que estava no CCZ era a evidência dessa barbárie: magérrima, doente, ferida e marcada pelo peso da carroça que por tanto tempo puxou. Tripoli, um apaixonado por cavalos, examinou os cascos. Mais descaso e maus-tratos, nos cascos sem os devidos cuidados.

Infelizmente, a égua retirada de maus-tratos não poderá ser encaminhada para um novo dono, para viver em paz em um sítio ou chácara. É portadora de anemia infecciosa, doença altamente contagiosa e que requer o sacrifício do animal soro-positivo. Tripoli despediu-se da égua e mais uma vez, emocionou-se ao saber que ela seria eutanasiada.

UM CACHORRÃO ALEGRE,
ESCOLHIDO PARA VIVER.


Depois de tanto horror, um encontro descontraído, em um dos pátios internos do CCZ. Um cachorrão alegre e festeiro abraça o vereador, quer brincar, correr. Late a abana muito seu longo rabo. Parece querer contar a boa nova: foi adotado. A médica veterinária Fernanda Puga queria um cachorro e resolveu salvar uma vida no CCZ. Ponto para a vida. Tripoli brincou muito com o cachorro, um verdadeiro símbolo da vida.

A vida que ainda resiste por entre dores e horrores, num Centro de Controle de Zoonoses que precisa retomar suas reais funções, mas também colaborar com o estabelecimento de novos rumos para a coexistência de animais e humanos na maior cidade do País, e todos os problemas ambientais e de saúde pública advindos dessa realidade. Discutir caminhos efetivos, sobretudo a responsabilização dos proprietários de animais, bem como novos rumos para a reabilitação de animais descartados pela sociedade.


(Texto: Regina Macedo / jornalista ambiental)
 
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